Master in Communication, Culture and Information Technology (ISCTE-IUL)

Sintra

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Jornalismo de Investigação em Cidade de Deus

Trabalho avaliado pelo professor e jornalista Oscar Mascarenhas (ex-Presidente do Conselho Deontológico do Sindicato de Jornalistas)

Uma análise do filme e da obra

   O filme “Cidade de Deus” é uma adaptação cinematográfica do livro de Paulo Lins, lançado em 1997, que relata mais de duas décadas de criminalidade, violência e tráfico de drogas na favela Cidade de Deus – um bairro localizado em Jacarepaguá, na zona oeste do Rio de Janeiro. Embora à primeira vista estas criações possam parecer puramente ficcionais, Lins cresceu na favela e escreveu o livro com base na sua experiência pessoal e recorrendo a um método de investigação comum ao jornalismo: entrevistas.

   O filme não foi visualizado de forma indiferente, tanto a nível nacional como internacional, reforçando a ideia que alguns teóricos defendem - que o meio audiovisual consegue atingir mais facilmente as grandes massas do que, por exemplo, a literatura. Aliás, o filme permitiu que outros trabalhos de investigação se
desenvolvessem dando origem a reportagens, filmes e até documentários. Mas a obra de Lins não foi esquecida, muito pelo contrário - acabou por ganhar destaque com a sua adaptação cinematográfica. As críticas dividiram-se, mas não tenho como objetivo analisá-las, mas sim referir e fomentar a minha opinião.

   O meu objetivo principal é analisar o filme e a obra e compará-la com as noções de alguns autores e jornalistas sobre “jornalismo de investigação” e “jornalismo de reportação”. Associar estas noções a um filme e um livro que misturam ficção e realidade não é trivial e, por essa razão, é necessário analisar diversos fatores. Segundo Lívia Lemos Duarte da Universidade Federal do Rio de Janeiro, “Cidade de Deus” “embora tenha estreitos vínculos com a realidade exterior, o romance adquire valor como obra ficcional devido a seus componentes formais, como a configuração do seu espaço narrativo, o discurso do narrador, a influência da abordagem etnográfica e
da linguagem popular marcada pela criatividade das gírias.”

   É necessário perceber se foi feito jornalismo de investigação para a construção do
livro, na medida em que este denuncia crimes como a corrupção policial, ou se apenas a personagem Busca-Pé, aspirante a fotógrafo e mais tarde a fotojornalista, foi criada para nos passar a ideia de intervenção jornalística, de denúncia.

   Por essa razão, este trabalho divide-se em duas partes. Primeiro irei analisar o modo como a obra “Cidade de Deus” foi criada por Paulo Lins. Quero perceber a razão pela qual Lins escreveu o livro e que tipo de pesquisa é que este fez. Quero tentar perceber até que ponto é que a barreira entre a verdade e a ficção está ou não definida. Tendo o autor realizado um trabalho etnográfico de 10 anos, será que isso
lhe confere o título de jornalismo de investigação?

   De seguida, irei debruçar-me sobre a adaptação cinematográfica de Fernando  e, devido a razões que irei explicitar mais à frente, apenas irei focar-me na personagem que é destacada no filme, Busca-Pé, e perceber se esta personagem fez jornalismo de investigação. Paulo Lins é escritor, não é jornalista. No entanto, como disse antes, não passou indiferente aos olhos da sociedade dentro e fora das favelas, assim como aos olhos dos jornalistas que viram ali uma oportunidade para investigarem algumas denúncias feitas no livro. É por isso que é tão relevante observar atentamente o trabalho deste escritor e tentar perceber onde acaba a realidade e começa a ficção.

Jornalismo de investigacao em Cidade de Deus.pdf (306,2 kB)